segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

RELAÇÃO: IDENTIDADE & ALTERIDADE

O Ser Humano não vive só. Somos, antes de tudo e de mais nada, sujeitos em relação. O que é a vida, além de fruto desses encontros e desencontros? A vida humana é constituída dessas e nessas interações. Mesmo a imagem que fazemos de nós mesmos se forma a partir dessas interações.

Alteridade é o caráter do que é outro, a diversidade, a diferença. O antônimo de identidade. Quando eu me nomeio, qualifico a mim, designo-me uma identidade, sou UM. Quero, necessito que me identifiquem e reconheçam.

O diferente é necessário, imprescindível, essencial. Porque? É certo que o olhar para dentro é o que constrói, que faz com que o indivíduo reconheça suas capacidades e limitações. Mas muito do que sei de mim, o vi através do olhar do outro, que se fosse idêntico, não me mostraria nada. Respeitar o outro é querer respeito consigo.

A divisão entre a subjetividade e a pura objetividade carece de sentido, então: Não existe o Eu isolado, indiferente da ação e do olhar alheio (o que diminui nossa independência); como não existe a total autonomia dos Outros , o pensar que os objetos não sofrem interferências do nosso modo de agir e olhar sobre eles (o que aumenta nossa responsabilidade). Existe sim, uma relação dialética: a intersujetividade.

Somos fruto das experiências e das relações. Não significa que estejamos sujeitados a elas, já que também interferimos nas coisas e nas pessoas. Trata-se de uma troca e não de uma imposição. É um diálogo, não um monólogo.
Somos autor-e-arte, fim-e-meio, nessas interações.

Quem é auto-suficiente a ponto de independer do olhar do outro? Ninguém. Somos seres sociais. Necessitamos do outro, do olhar do outro. Ser reconhecido. Admirado. Respeitado. E, porque não, amado. O filósofo Todorov já dizia que “
o pedido de reconhecimento é necessariamente um combate; e visto que, para os homens, o reconhecimento é um valor superior a vida, trata-se de uma luta de vida ou morte. Parece grave, não? E o é!

Ser reconhecido pelo outro é muito mais do que uma simples vaidade! É o que nos dá sentido. E o que nos fundamenta como pessoa
. Tanto que o romancista Milan Kundera diz que o olhar do outro é antes uma necessidade... Somos apenas parcialmente independentes.

Somos todos Uns em função do Outro.
Mas quem é esse Outro? Outro Um.
Tão Um quanto sou, embora diferente.
De que se constitui essa diferença? Todos temos dentro de nós todas as possibilidades humanas. Da mais alta virtude à mais baixa vilania. Ninguém é totalmente bom, nem totalmente mau. Nos posicionamos, em cada nuance, de acordo com nossas vivências, nossos valores e nosso caráter. Somos todos imperfeitos, incompletos e diferentes. As gradações é que variam. NenhUm é igual a outro Um.

Quando entro em uma relação já "sabendo tudo que vai acontecer" ou achando que tudo é previsível, estou na realidade fechando os meus olhos ao Outro. Negando a diversidade, a diferença. É certo que já tive experiências que me constituem também. Mas se o presente só pode ser explicado a partir daquilo que já aconteceu, não há espaço para o que é totalmente novo, para outra realidade, diferente da minha, para o inusitado, para o improviso, para a alteridade, enfim e para o crescimento.

Quando parto do princípio que "tudo é previsível" numa relação, não vejo, não enxergo, não olho, não identifico, não reconheço o Outro. Levo para a relação apenas a mim, e outro é assim apenas a minha construção do que é o ser Outro, a minha projeção. O Outro sou Eu, Eu projetado, não outro Um. Nesse caso, relaciono-me apenas comigo, pratico onanismo com o Outro, tão somente.

Quando entro em uma relação já "sabendo tudo que vai acontecer" nego o direito ao Outro de ser identificado, nego ao Outro a necessidade de ser reconhecido pelo que é, e não pela minha pessoal construção do que é o Outro, sem chegar a vê-lo ou conhecê-lo na sua individualidade.

A arte de viver as relações em sua intensidade e manter a individualidade, é o que dá sentido à nossa vida. Mas todas as individualidades, não apenas a minha.

De que vale a qualquer Um o autoconhecimento, o constante aprimoramento das suas capacidades, se numa relação é jogado na vala comum do Outro indiferenciado de alguém? Não é uma imensa falta de respeito?


Quando entro numa relação levando apenas a mim, e não diferenciando, identificando e reconhecendo o Outro, não apenas desqualifico o Outro, desvalorizo o Outro, desrespeito o Outro, aniquilo e mortifico o Outro, negando sua individualidade e valor. Também impeço, prejudico, invalido, anulo, incapacito, obstruo, enfim, mEu próprio crescimento, porque perco o que poderia ver e aprender e prosperar e desenvolver perante o Olhar do Outro, que não identifiquei ou reconheci ou nomeei, que passou e não vi.

Quanto espanto perante o sentimento de traição do Outro! Sou confiável? Qual o resultado das minhas relações? Crescimento e alegria ou gente aos pedaços? Tudo que toco vira pó? Será que já voltei ao pó antes de chegar a hora? Quem sou Eu, apenas o que penso que sou, sem Outro para me nomear? O que será que os Outros vêem de mim e que não sei, porque não vejo, não me permito ver, que me impregna, que me trespassa, que me permeia, que me tatua, que se interpõe e interfere em todas as minhas relações? (Todas as relações porque o que sou, sou em qualquer lugar.) Quem sou eu?

É preciso contemplar a diferença e entender que “quando eu nomeio, eu me nomeio” e sem o Outro eu não sei quem sou, porque apenas sou em relação e em sociedade.

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Estou convencido de que o mundo não é um mero pântano onde homens e mulheres se jogam... e morrem. Algo magnificente está ocorrendo aqui em meio às crueldades e tragédias e o desafio supremo à inteligência é fazer prevalecer o que há de mais nobre e melhor em nossa curiosa herança. (C. A. Beard).

2 comentários:

Mai disse...

Oi, Lu.

Esta talvez seja uma visão sociológica da alteridade na relação do eu, socialmente constituído.

Pela via da linguagem o indivíduo se deparará com esse primeiro outro - um 'cuidador'que poderá ser mãe ou qualquer outro que a substitua - inclusive um pai, a quem o EU se referirá e relacionará, envolvendo seus afetos, por ele, através dele, ou na ausência dele.

Dependendo disto, o sujeito se constituirá como 'sujeito', 'individuo' OU NÃO.
Eu discutiria esse assunto contigo, Lu, por horas.
E acho bárbaro saber a tua opinião e nem sei se ao final não estaríamos falando a mesma lingua e dando risada.

Mas terei que discorrer em alguns 'gaps', em que a psicologia pensa a constituição do sujeito estruturado e na estruturação como gênese e fundamento para a IDENTIDADE, onde, dependendo da experiência - esse sujeito EXCLUI ou Não, a relação com a alteridade.

O que me parece necessário aqui é considerar que:
1 - Na relação com o primeiro 'outro', o sujeito pensante pode não sair INDIVÍDUALIZADO E INTEGRADO.

2 - O sujeito pode não se constrituir estruturado e isso se verificará mais ou menos, aos 8 anos.
Dependendo do que uma criança vive nesse fragmento de tempo e, sobretudo "COMO" O SEU CUIDADOR SE RELACIONOU COM ELE, NESSA QUE É A PRIMEIRA RELAÇÃO com a ALTERIDADE.
Daqui decorrerá toda e qualquer prospecção e possibilidade de IDENTIDADE do sujeito que, apenas se dará se a experiência com o primeiro outro tiver sido estruturante.

Se inversamente - desestruturante, esquizofrenizante,'coisificante'...
Tenho fortes argumentos, Lu para afirmar que isto, até o momento, com os modelos de assistência que tivemos, não se configura como possível.

E aqui é importante que eu te diga que estou me referindo, unicamente, aos portadores de transtoirno psíquico severo. Nas demais relações, sim, chegaremos a essa mesma conclusão que tu.


Não é toda relação com o primeiro outro que garante a IDENTIDADE do sujeito. Há relações em que a alteridade 'decreta', de tão dúbia e distante de afetos, a elisão do sujeito como um traço que virá se manifestar por volta dos 20 aos 24 anos nos homens e nas mulheres um pouco mais. Há casos mais severos em que a elisão é na adolescência, dependendo do trauma.

'ELIDIDO', não há identidade - Não havendo identidade, não há referência com alteridade porque não há clareza do que é externo ou intrapsíquico....

Aqui é importante que eu afirme. que a elisão decorre de uma falta de estruturação da identidade. Então não é simples assim, Lu.
O sujeito socialçcxhega com os traços do primeiro grupo social e se este lhe faltar ou se mostrar hostil, o mundo lhe será.
Alteridade ai, no sentido filosófico, n~çao considerará uj outro que o traia.

Aqui o conceito de alter ego é importante.
O alater ego - é alguém - um outro eu, em quem eu confio tanto quanto em mim mesmo. Amigo íntimo. Como confiaria num outro que me traiu?
Como pensar em confiar num outro que me faltou, sempre?

Como um sujeito confiar numa mãe que o abandonou?
Como um Homem confiar num pai que se suicide em tenra infancia?

Aqui há um dos mais terríveis transtornos psíquicos a esquizofrenia.
Sofrimento psíquico severo que acomete e compromete, todas as principais funções da psique - pensamento, linguagem, percepção e sensação.
São indivíduos embotados de emoção e, seja por questões sociais como a exclusão, seja pela própria elisão, para esses indivíduos, a alteridadeneles é nula, sendo plena da sua própria experiência.

Porque ele sempre irá falar de si para si - onde ele vê como alter um outro, distinto e apartado de si, sendo sempre ele mesmo com todos os seus fantasmas e culpas e monstros, a comandar-lhe e sempre, aterrorizando.

O sujeito que não se constitui como INDIVÍDUO na primeira relação com o outro, dificilmente, conseguirá partir para uma relação com a sociedade sem os 'estragos'do abandono, dos seus medos e dos dramas.

Bem, queria voltar e continuar essa discussão em uma outra hora.
Temo não estar com a escrita muito clara e esse tema me apaixona demasiado.

Masé bom partilhar comuma mulher inteligente como tu, questões que me são muito caras.

Talvez não pensemos muito diferente se conseguírmos dialogar atravessando os saberes distintos num viés possível.

Beijos, Lu..

Desculpa amiga,
o jornalzinho...

quem manda postares um tema apaixonante?!?!

Henrique Dória disse...

Mais importante do que ser reconhecido, é conhecer-se a si mesmo. Beijos