
Conta a lenda que em um reino não muito distante, vivia um principezinho. Era um tanto solitário depois do falecimento de sua mãe, pois seu pai andava muito atarefado com as necessidades do reinado.
Um dia, nos seus passeios pelos arredores, o principezinho encontrou um menino. Este se vestia muito distintamente, usava um linguajar muito apropriado e tinha bons modos. O principezinho convidou-o então a conhecer o palácio. Tornaram-se amigos e o principezinho se afeiçoou a ele. Vinha sempre o menino brincar e se divertiam.
Em uma ocasião, o menino contou ao principezinho que estava muito triste, pois seu pai já não tinha trabalho e, desgostoso, fora procurar melhor sorte em terras distantes. Confessou também que, em sua casa, quase já não havia alimentos. O principezinho, atônito, ofereceu ajuda, porém o menino, na sua distinção quase orgulhosa, recusou solenemente.
Uma idéia ocorreu ao principezinho. Convidou o menino para ser o tratador dos pássaros reais do grande aviário que havia no palácio. E ficou feliz quando o menino aceitou de bom grado. Assim, vinha todos os dias o menino cuidar dos pássaros. A amizade se fortaleceu e o principezinho animou-se a confidenciar ao menino todas as suas tristezas, pois, embora tivesse amigos, era muito reservado quanto aos seus sentimentos. O menino era sempre muito solidário e o principezinho alegrou-se de ter encontrado o melhor amigo que podia haver.
Passado algum tempo, o principezinho que já confiava muito no amigo, chamou-o ao jardim do palácio e lhe apresentou um jogo. Era um jogo antigo, herança da linhagem real, um jogo secreto. E lhe disse: - "Este jogo está guardado há muito tempo e é precioso. Vou ensinar-lhe as regras, mas cuida! É um jogo secreto". E desde então, divertiam-se muito a jogar.
Estava em uma ocasião o principezinho a admirar os lindos pássaros do aviário real, quando percebeu que não encontrava o casal de sabiás, cujo canto sempre o embevecia. Foi perguntar ao menino, que lhe respondeu: - "Sabiás? Não me recordo de ter visto alguma vez sabiás por aqui!" O principezinho estranhou, mas nada disse.
No dia seguinte, procurou pelos lindos cisnes que costumavam desfilar majestosos pelo lago do jardim. Não os encontrando, indagou ao menino seu paradeiro, ao que este respondeu, muito sério: - "Cisnes no lago? Nunca houve cisnes no palácio!”.
No terceiro dia, o principezinho deu por falta do pavão de lindas plumas. Foi até o menino e perguntou: - "Onde está o pavão que ainda ontem deslumbrava o jardim, abrindo o leque de sua cauda?". Ao que o menino gritou, muito zangado: - "Ora principezinho! Agora você já está delirando!”
O principezinho entristeceu. Não sabia o que pensar. Teria perdido a razão? E na sua tristeza, adoeceu. E o menino ofendido não o foi visitar e nada fez para alegrá-lo, abandonando-o. Passado um mês, o principezinho se recompôs. E foi ter com o mago do reino: - "Preciso da sua ajuda, mago. Necessito saber o que acontece. Transforma-me então em uma coruja." O mago consultou pesados livros antigos e preparou uma poção, entregando-a ao principezinho.

À noite, quando todos já dormiam, o principezinho serviu-se de um gole da poção e, transformado em coruja, voou até a casa do menino. Pousou em um galho bem à beira da janela e esperou. Viu assustado, quando o menino se dirigiu até a sala e, próximo à lareira, despiu-se, transformando-se em uma grande raposa vermelha e feroz.

A raposa ganhou a rua a correr. A coruja voou silenciosamente atrás, até alcançarem o aviário real. Incrédula, a coruja assistiu quando a raposa avançou com voracidade sobre as pobres aves, e pôde ver seu olhar inflamado de prazer enquanto o sangue de suas vítimas escorria-lhe por entre os dentes afiados. Já satisfeita, a raposa voltou à sua casa enquanto a coruja a acompanhava à distância. E muito chocada, viu quando ela, de volta à forma de menino, em torno de uma grande fogueira no quintal, contava a seus pares, aos risos, os segredos do jogo real que lhe confiara. A coruja piscou seus grandes olhos redondos e pesadas lágrimas orvalhadas correram.
Passados dois dias, o principezinho foi ter com o menino, e lhe disse: - "Transformado em coruja, vi tudo o que fez. Não permito mais que cuide das aves do palácio." Ao que o menino respondeu com desprezo: - "Não preciso de você, principezinho. Não viu quantos amigos tenho?" E acrescentou indignado: - "Como ousou me bisbilhotar?" O principezinho percebeu então que o menino não podia compreender que, aquilo que fizera em forma de coruja, fora em defesa de sua sanidade. O menino apenas enxergava sob sua perspectiva de raposa.
Passados dois dias, o principezinho foi ter com o menino, e lhe disse: - "Transformado em coruja, vi tudo o que fez. Não permito mais que cuide das aves do palácio." Ao que o menino respondeu com desprezo: - "Não preciso de você, principezinho. Não viu quantos amigos tenho?" E acrescentou indignado: - "Como ousou me bisbilhotar?" O principezinho percebeu então que o menino não podia compreender que, aquilo que fizera em forma de coruja, fora em defesa de sua sanidade. O menino apenas enxergava sob sua perspectiva de raposa.
O principezinho decidiu então esquecer toda aquela história e resolveu viajar para conhecer outros reinos distantes. Voltou ao cabo de um mês. Estava a passear pela feira, quando se deparou com o menino. Este estava muito só, amuado a um canto. Percebeu suas roupas rotas e decompostas. O coração do principezinho enterneceu-se. Foi ter com o menino. Não perguntou sobre seus inúmeros amigos, antes, convidando-o ao palácio, deu-lhe roupas novas e alimentos.
Depois disso, ocasionalmente o menino aparecia, porém, aparentemente sem controle de sua metamorfose, sempre tinha algo a lhe denunciar: ora as orelhas pontiagudas, ora os apertados olhos inflamados, ora a farta cauda vermelha. O principezinho nada apontava, guardava um silêncio respeitoso, pois desejava o bem ao menino e não queria magoá-lo. O menino sorria e o olhava com carinho.
Certa feita, chegou o menino ao palácio totalmente transformado em raposa, em plena luz do dia. O principezinho alimentou-a e afagou-lhe o dorso. A raposa rosnou e mordeu sua mão.
Desta vez o principezinho embora entristecido, permaneceu impassível. Adquirira ciência nos vôos de coruja solitária, compreendendo que cada um age segundo a sua própria natureza. Embora o menino também gostasse dele, mantinha suas características de raposa. Decidiu apenas guardar uma distância segura.

18 comentários:
E saber que na vida real nos deparamos com muitas raposas.
beijooo.
Olá, Luciene!
Adorei a história!
Quantas raposas se encontram no mundo? Muitas vezes os seus dentes afiados deixam marcas profundas que levam anos a sarar...
Beijinhos minha querida,
Graça Mello
Olá, Luciene!
Adorei a história!
Quantas raposas se encontram no mundo? Muitas vezes os seus dentes afiados deixam marcas profundas que levam anos a sarar...
Beijinhos minha querida,
Graça Mello
Sim, Ana, mas muitas tem pouca consciência de sua malícia.
Beijo
Olá Graça. Na verdade, cada um age segundo sua própria natureza.Independe do interlocutor.
Beijo
Que lindo texto... muito interessante .... abração tudo de bom....
Afinal, uma raposa é sempre uma raposa... Ótima narrativa! Boa semana.
Que bom ter novos leitores!
Boa tarde Anderson
Agradeço seus elogios!
Olá Tossan
Sim, não podemos criar em nós, expectativas diferentes da natureza de ninguém. Nem da nossa, nos outros. rsrsrsrs
Quer dizer, poder, podemos... e muitas vezes o fazemos, mas o desapontamento é inevitável.
Beijos
muito bem escrita a tua esório meio lenda.
Eu particularmente não acredito mto na chamada natureza humana. Sobretudo entre o Bem e o Mal. Eu acredito mais é na Condição Humana.
Obrigado pela tua visita adorei te conhecer...e vou passar por aqui sempre.Vou linkar seu blog ao meu posso?
beijosss viu!!
P.S.: das 3 coisas vc quer logo que te caía os dentes?? eheheeheh logo vc com essa boca tão bonita!!?? Não me diga que vc sofre de RECAÍDAS de amor??!!
Fica tranquilo Leo, em relação a estória meio lenda... rsrsrsr
tem continuação! Não vou escrever aqui que estraga a graça, né?
Volte mesmo para ler. É minha primeira experiência com contos.
Obrigada por linkar o meu blog!
Farei o mesmo.
Quanto aos dentes... me ative nessa "punição" talvez porque eu seja dentista.kakakakaka
Sofro, às vezes, sim. Pode rir.
Beijo
Lu
Oi Luciene,
muito bonita a mensagem deixada por essa fábula. Amar as pessoas que se parecem conosco e nos tratam bem é muito fácil. Amar o feio, o cruel, o feroz, torna-se uma tarefa árdua. A raposa é metáfora dos defeitos que vamos descobrindo em amigos queridos. Defeitos que precisamos relevar e, por causa deles, até nos afastar um pouco. No entanto, se o carinho e a afinidade perduram, não há por que romper os laços. O amor prevalece.
Beijo pra você e parabéns pelo talento!
Todo mundo tem seu momento de raposa, por mais que tente se controlar. Tendemos a ver as coisas apenas pela nosso ponto de vista.
Abraços.
Felipe, agradeço muito seus elogios!
Homero, nossa maior tendência é essa mesmo!
Bem-vindos, voltem sempre... a história tem continuação!
Várias lições ficam desse post...
Não podemos mudar a natureza das pessoas e não devemos abrir nosso coração e nosso segredo pra qualquer um
Oi amiga
difícil isso, não é? quando , como, o que abrir... às vezes penso que o ideal seria sempre... mas sem expectativas de resposta... alguém consegue isso também? sei lá!
Oi luciene obrigada vc, e seja bem vinda, espero podermos sempre estar juntas aqui,que bom que me linkou tbm linkei vc...
Linda tarde a ti,beijos
Flor, seu blog é muito legal. Você é uma artista. linkei pra não a perder de vista... volte quando puder!!
beijo
Lenda ou metáforas não importa, o importante é a tua escrita que me encanta. Beijo
Olá. Estive aqui. Muit legal essa estoria. Eh isso mesmo. Apareça por lá. Abraço.
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